Ela
já atinge praticamente 10% da população mundial e a projeção aponta um
triste crescimento. Entenda por que a doença é considerada o mal deste
século.
Em 1911, o então almirante Winston Churchill escreveu para sua
esposa: "Acho que um médico pode ser útil para mim se o cachorro negro
voltar. Ele parece estar distante agora, o que é um alívio. Todas as
cores voltam à vida". Estaria o futuro primeiro-ministro britânico
falando em códigos sobre uma missão ultrassecreta? Não! Ele apenas
popularizara o termo "cachorro negro" como uma metáfora para depressão,
da qual sofria longas e duras crises. Aliás, Churchill é só um nome de
uma longa lista de personalidades com um ponto comum em suas biografias:
Vincent Van Gogh, Abraham Lincoln, Albert Einstein e Charles Darwin
também penaram com esse transtorno em algum momento da vida.
Mas a depressão não é uma má companhia apenas para os gênios das
artes, das ciências e da política: ela atinge pessoas de todas as cores,
classes sociais e faixas etárias. A Organização Mundial da Saúde (OMS)
apostava que o problema seria responsável por 9,8% do total de anos
saudáveis desperdiçados pela humanidade lá em 2030. Pois não é que essa
estimativa foi alcançada já em 2010, duas décadas antes do previsto?
Atualmente, 400 milhões de pessoas convivem com o distúrbio no planeta.
Além de liderar a lista das doenças mais incapacitantes, a melancolia
sem fim gera gastos na casa dos 800 bilhões de dólares por ano — o
equivalente ao Produto Interno Bruto da Turquia.
A situação em nosso país é particularmente ruim: um levantamento
realizado pela americana Universidade Harvard em 18 localidades mostra
que a prevalência de depressão no Brasil é a maior entre as nações em
desenvolvimento, com um total de 10,4% de indivíduos atingidos. E a taxa
de mortes relacionada a episódios depressivos (incluindo suicídios)
aumentou 705% por aqui nos últimos 16 anos, segundo pesquisa realizada
pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Convém deixar clara a diferença entre depressão e tristeza. A
primeira é uma doença, marcada por sentimentos de prostração, perda de
interesse e prazer, culpa, baixa autoestima, distúrbios de sono
e na alimentação, cansaço e déficit de concentração. Embora os médicos
não conheçam em detalhes os motivos do início de uma crise — tampouco o
que acontece direito no cérebro deprimido —, o quadro tem diagnóstico e
tratamento. Portanto, não dá para caracterizá-lo como falha de caráter
ou falta do que se preocupar. "Ainda há muito estigma, e isso só
prejudica a melhora do paciente", diz o psiquiatra Táki Cordás, do
Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq-USP).
Na contramão, a tristeza faz parte da natureza humana. "Ela é uma das
formas como expressamos o colorido das emoções", define o psiquiatra
Luis Felipe Costa, consultor da Associação Brasileira de Familiares,
Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos. O problema começa quando
esse sentimento paralisa e impede que a vida siga em frente. Aí é
preciso procurar ajuda. O escritor americano Andrew Solomon, autor de O Demônio do Meio-Dia
(Companhia das Letras), obra que faz um grande retrato do transtorno,
resume bem esse conceito: "O contrário da depressão não é a alegria,
mas, sim, a vitalidade".
Mas como explicar essa explosão de casos nas últimas décadas? Os
especialistas entrevistados por SAÚDE foram unânimes em apontar o melhor
diagnóstico da doença como fator principal. "Talvez ela atingisse muita
gente no passado, mas, por falta de informação, ficava escondida",
avalia o psiquiatra Antonio Egidio Nardi, da Universidade Federal do Rio
de Janeiro. Mais interesse sobre o tema e médicos preparados
justificariam, então, boa parte da epidemia.
Outro ingrediente de peso é uma palavra que acompanha a rotina de
quase todo cidadão: estresse. "Em estudos com ratos jovens, vemos que
ele é um desencadeador de depressão na vida adulta", observa a biomédica
Deborah Suchecki, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em
humanos, a tensão e o nervosismo além da conta fazem o cortisol decolar.
Quando esse hormônio se mantém alto por um longo tempo, provoca uma
bagunça cerebral. Que tristeza!
Nesse sentido, o fato de boa parte da população viver em cidades
assoladas por trânsito, filas, violência e risco de ataques terroristas e
catástrofes naturais faz o tal do cortisol chegar à estratosfera. O
individualismo e a sobrecarga de informações que bombardeiam a cachola
teriam efeito similar. "O estresse afeta a saúde mental na mesma medida
que o tabagismo é prejudicial ao coração", compara o psiquiatra Gerard Sanacora, da Universidade Yale, nos Estados Unidos.
Pegando um gancho na fala do médico, um terceiro personagem
importante dessa história é o abuso em álcool, tabaco e outras drogas.
Dados de um levantamento da Unifesp de 2013 apontam um crescimento de
20% no consumo frequente de bebidas no Brasil, tendência que se repete
no planeta inteiro. "A dependência química é uma das principais
promotoras do transtorno", afirma o psiquiatra André Astete, que hoje
atua na Secretaria Municipal de Saúde de São José dos Pinhais, no
Paraná.
Cabe esclarecer que a depressão depende de uma predisposição genética
para se manifestar. Em outras palavras, nem estresse nem drinques a
mais conseguem, sozinhos, acordar o cachorro negro. "Eles funcionam como
gatilhos para o surgimento do distúrbio", diz o médico Antônio Geraldo
da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria. O problema
é que, na sociedade moderna, o número de fatores prontos para deflagrar
uma crise parece só aumentar.
Assim como acontece na maioria das doenças, flagrar a melancolia em
seus estágios iniciais está relacionado a um tratamento mais efetivo e
menos penoso. Além disso, quanto mais o quadro se prolonga, piores são
suas repercussões. "Nosso desafio é encontrar os casos leves, uma vez
que os moderados e graves são fáceis de perceber", atesta Cordás. Por
ora, o diagnóstico é feito no consultório, com o relato do paciente e
seu histórico familiar — a ciência ainda não descobriu uma molécula no
sangue que denuncia a condição com assertividade.
Nesse sentido, a U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF), uma
comissão de estudiosos que elabora as políticas de saúde pública para o
governo dos Estados Unidos, alterou a sua recomendação sobre a forma de
detectar a depressão. Desde o começo de 2016, eles passaram a sugerir
que os médicos — independentemente da especialidade — realizem testes de
rastreamento em todos os pacientes acima de 18 anos. "Nos baseamos nos
estudos em que pessoas identificadas previamente e tratadas com
antidepressivos e psicoterapia obtêm uma melhora significativa dos
sintomas", justifica o epidemiologista Michael Pignone, membro do USPSTF
e professor da Universidade da Carolina do Norte.
O exame é composto de um questionário simples, com poucas perguntas.
As respostas dão um indicativo de como anda a saúde mental do indivíduo.
"É importante salientar que o rastreamento é só o primeiro passo. Caso o
resultado inicial seja positivo, um psiquiatra realizará uma avaliação
criteriosa", completa Pignone. Infelizmente, o Brasil não possui
programas do tipo e não há uma discussão sólida para que se estabeleça
algo nesse mesmo modelo. "Nosso país conta com apenas 5 500 psiquiatras
para um número gigantesco de queixas", lamenta o neurocientista José
Alexandre Crippa, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da
Universidade de São Paulo.
Só é necessário tomar cuidado para não enxergar um cachorro negro
onde há apenas tristeza passageira. "Também precisamos fazer
diagnósticos criteriosos e não confundir depressão com uma série de
transtornos com características parecidas, como a bipolaridade",
lembra o psiquiatra Pedro do Prado Lima, de Porto Alegre. Cada
distúrbio pede uma tática diferente de combate — embaralhá-los,
portanto, só atrapalha a recuperação.
Esqueça a história de que a depressão é uma doença exclusiva da
mente. Pesquisas começam a comprovar que seus efeitos físicos vão muito
além. Podem atingir, sem exageros, o corpo inteiro. O primeiro
prejudicado é o próprio órgão do pensamento. "Conforme o quadro avança,
ocorre uma diminuição em estruturas cerebrais importantes, como o
hipocampo, relacionado à memória e às emoções", cita Sanacora. E essa é
apenas uma de suas repercussões: o coração, as articulações e o sistema
imunológico sofrem quando a melancolia se instaura de vez.
Pesquisadores da Universidade de Granada, na Espanha, reuniram dados
de 29 estudos com cerca de 3 900 pacientes para entender a fundo essas
ligações perigosas. Após a análise, ficou claro que os sujeitos
deprimidos carregam mais radicais livres no organismo — em excesso,
esses elementos prejudicam o funcionamento das células saudáveis e abrem
alas para uma coleção de encrencas. Por outro lado, substâncias
antioxidantes, de efeito benéfico, se encontram em menor número. A
notícia boa é que o tratamento correto traria de volta o equilíbrio a
essa equação.
O drama para o corpo é que a depressão provoca um intenso estado
inflamatório. Lembra da história do cortisol nas alturas? Pois ele volta
a incomodar aqui. "Junto a uma série de fatores, altos níveis do
hormônio baixam a imunidade e aumentam a propensão a artrite reumatoide,
problemas cardiovasculares e até câncer", alerta Costa. O risco sobe
nos casos em que o transtorno se desenvolve por anos a fio, sem nenhum
contra-ataque adequado. Segundo Costa, médicos australianos testam
inclusive o uso de anti-inflamatórios em parceria com os antidepressivos
como uma forma de abreviar o tempo de resposta ao tratamento.
A relação entre melancolia e males cardiovasculares é particularmente
forte. Uma investigação realizada pela Universidade de Bordeaux e sete
outras instituições francesas acompanhou 7 313 indivíduos entre 1999 e
2001. Todos eles foram avaliados em quatro oportunidades distintas ao
longo desse período. Aqueles que apresentavam altos índices de sintomas
depressivos em todas as ocasiões tinham um risco 75% maior de sofrer um
infarto ou um acidente vascular cerebral, o AVC.
E olha que o caminho contrário também pode ocorrer: uma desordem
qualquer pode ser o gatilho para um abalo psíquico. "Grupos com algum
problema crônico se apresentam mais deprimidos que a população geral",
afirma Astete. Foi o caso do escritor Andrew Solomon: após a morte de
sua mãe e o fim de um relacionamento amoroso, uma crise de pedra nos
rins foi a gota d'água para que o transtorno emergisse. "Senti o
controle de minha própria vida escorregar das mãos. `Se essa dor não
parar' disse para um amigo, `vou me matar'. Eu nunca tinha dito isso
antes", escreveu.
Os tratamentos para depressão mudaram muito ao longo da história.
Capacete de chumbo, couve-flor, gengibre, hidromel, mirra,
banana-da-terra, masturbação e até um cano pingando água ao lado do
doente já foram prescritos. É curioso notar também que os remédios
surgiram há menos de 70 anos. Em geral, eles agem no cérebro e aumentam a
presença de neurotransmissores relacionados à sensação de bem-estar.
"As classes medicamentosas prescritas atualmente partem do princípio de
que há menos substâncias essenciais, como a serotonina, para o bom
funcionamento dos neurônios", resume Deborah Suchecki.
A recuperação pode levar alguns meses ou até mesmo ser contínua.
Nesses casos, o paciente toma uma dose de manutenção pelo resto da vida,
para se certificar de que a depressão não voltará. "Quem teve uma
primeira crise possui 50% de chance de sofrer outra no futuro", calcula
Crippa. Caso o segundo episódio ocorra, a probabilidade de um terceiro
sobe para 70%. Se o terceiro acontecer, o risco de um quarto chega a
90%. O sujeito que já passou por quatro momentos depressivos com certeza
terá um quinto se nada for feito.
Isso só aumenta a importância de não abandonar a terapia pela metade.
"Há um grande perigo de retorno, e com maior gravidade, se o paciente
desistir no caminho", alerta o psiquiatra Fernando Fernandes, do
Programa de Transtornos Afetivos do IPq-USP. Os comprimidos demoram três
semanas para trazer melhoras. Porém, os pequenos ganhos iniciais não
significam cura. É preciso seguir direitinho a orientação do
especialista para não sofrer recaídas.
Nessas horas, é usual pedir apoio à psicoterapia, que se vale de
técnicas de expressão dos sentimentos e orientações para trazer alívio.
Nos casos leves, ela chega a dar conta do recado sozinha e até dispensa
fármacos. "E, mesmo em situações avançadas, esse tipo de tratamento é um
aliado primordial da terapia medicamentosa", ressalta Silva.
Em breve, novas opções reforçarão o arsenal terapêutico. É o caso do
neuropeptídeo Y e da ocitocina, duas substâncias que mostraram eficácia
no combate à depressão em testes iniciais. "A vantagem desses candidatos
é uma ação rápida em relação às drogas disponíveis hoje, destaca
Deborah. Nos estudos, elas foram administradas por meio de um spray
nasal: a mucosa do nariz está cheia de terminações nervosas, o que faz a
droga alcançar o cérebro com maior velocidade.
Contudo, de nada adianta apelar para novos medicamentos sem o suporte
de familiares e amigos. "A certeza de apoio em um momento de extrema
dificuldade é a chama de esperança para muita gente", reflete Nardi.
Afinal, o tratamento não vai matar o cachorro negro. O objetivo é
ensinar o paciente a lidar e conviver com ele diante das situações
difíceis que aparecem pela frente. Amor e carinho são essenciais para
que tudo dê certo. Com eles, o cão negro amansa e a vida se desvencilha
da depressão para abraçar a vitalidade.
Fonte: Revista saúde