terça-feira, 8 de outubro de 2013

Diabetes: praticar exercícios e fazer dieta não faz diferença?

Estudo gera polêmica ao concluir que dieta e exercício não reduziriam risco cardiovascular.


Foram 5.145 diabéticos acima do peso acompanhados em 16 centros médicos americanos por mais de dez anos - uma turma fazia regime e atividade física; a outra só participava de encontros sobre a administração do problema. Analisados os dados dos dois lados, o estudo Look Ahead constatou que a combinação entre dieta e exercícios não diminuiu o número de eventos cardiovasculares. Quer dizer, então, que basta tomar os remédios e se entregar à fritura e ao sofá? "Não. O trabalho falhou em mostrar os benefícios dessas intervenções porque teve um grupo de controle muito bem tratado, descolado da realidade", avalia Carlos Eduardo Barra Couri, endocrinologista da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto. "Sabemos que o estilo de vida ajuda a afastar outras complicações do distúrbio, como problemas renais e oculares", frisa. A pesquisa americana confirma, de todo modo, a importância do controle do colesterol e da pressão para o diabético e o quanto a dificuldade de manter o peso a longo prazo interfere nessa história.


BENEFÍCIOS COMPROVADOS

Problemas de ereção

Em outro braço do estudo Look Ahead, observou-se que quem fazia dieta e esportes teve menos disfunção erétil.

Apneia do sono

Os diabéticos que se mexeram e controlaram o cardápio também sofriam menos com essa desordem que prejudica o fluxo de oxigênio à noite.


Fonte: Revista saude - editora abril

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Hemoglobina glicada: um novo jeito de diagnosticar o diabete

Médicos americanos propõem que o exame mais indicado para controlar a doença passe a ser também uma ferramenta para detectar o mal.

Hemoglobina glicada

Guarde o nome deste teste: hemoglobina glicada. Para os portadores de diabete, ele é velho conhecido, pois aponta se o controle glicêmico foi ou não eficaz num período anterior de 90 dias. Assim como acontece com todas as outras células do corpo, os glóbulos vermelhos do sangue, durante seus três meses de vida, usam a glicose para obter energia. Só que eles se tornam irremediavelmente marcados, ligados a partículas do açúcar pela hemoglobina, a proteína que transporta o oxigênio. Quanto maior a concentração de glicose no sangue, maior a taxa de hemoglobina marcada ou glicada, explica Freddy Goldberg Eliaschewitz, chefe do Departamento de Endocrinologia do Hospital Heliópolis, em São Paulo. 

 
Agora, especialistas estão propondo que o mesmo exame seja usado também para diagnosticar a doença. Cerca de 30% dos americanos não sabem que são diabéticos, e muitos deles, quando ficam sabendo, já desenvolveram alguma complicação, justifica Christopher Saudek, endocrinologista daUniversidade Johns Hopkins, em Baltimore, e autor do estudo que será publicado na edição deste mês de julho da revista médica Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism. De acordo com a investigação, muitos pacientes submetidos ao famoso teste da glicemia de jejum só recebem o diagnóstico positivo quando já apresentam um quadro relativamente avançado da doença. Casos que ainda estão muito no início podem passar despercebidos daí a importância de olhar para os três meses pregressos. 
 
Apesar disso, a glicemia em jejum é um exame mais preciso, só que o paciente, após ingerir água com açúcar, é obrigado a ficar algumas horas no laboratório, enquanto o da hemoglobina glicada não tem esse inconveniente, compara Fadlo Fraige Filho, professor de endocrinologia na Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, que concorda: “O fato de as taxas de açúcar em jejum flutuarem deixa de fora do diagnóstico muitos dos que que já apresentam o diabete no estágio inicial.” 
 

Há controvérsias

Apesar de o teste em jejum ter suas falhas em apontar casos de pré-diabete reversíveis ou de diabete em estágio bem inicial (quando não dá para reverter a doença, mas sim barrar as complicações), a hemoglobina glicada é uma alternativa controversa. Por dois motivos. Um deles se refere ao custo. Enquanto uma glicemia de jejum sai em torno de 2 reais, o segundo exame fica entre 12 e 25 reais. Em um país como o Brasil, a diferença praticamente inviabiliza o rastreamento na população, afirma Walter Minucucci, professor de endocrinologia da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Outro obstáculo é a falta de padronização do exame da hemoglobina glicada, problema que já foi superado em muitos países, mas não está 100% resolvido aqui no Brasil, diz ainda o médico. 
 
Freddy Eliaschewitz é outro que não vê a nova proposta com muito entusiasmo: em alguns pacientes, a hemoglobina se liga com maior facilidade ao açúcar do que em outros. Para a gente ter certeza do diagnóstico, precisaria pedir outros exames (confira a comparação dos exames). Há um ponto, porém, para o qual os especialistas convergem: diagnosticar o paciente é importantíssimo. Não dá para fechar os olhos para o fato de que, sim, muita gente sai sossegada do check-up sem saber que está à beira de se tornar diabético ou que acabou de entrar para esse time.
 
Fonte: Revista saude - editora abril

terça-feira, 24 de setembro de 2013

De olho na dose: saiba o que é farmacogenética

A farmacogenética é a nova aposta da ciência para melhorar a eficácia dos medicamentos e driblar os indesejados efeitos colaterais, que nem sempre são fáceis de prever.

 Imagine a cena: você vai à farmácia, pede um remédio e o profissional ali presente acessa o seu código genético. De olho no seu DNA, ele descobre como o seu corpo irá reagir a determinadas substâncias, avalia qual a melhor opção de medicamento e indica a dose exata que você precisa tomar. Depois de alguns dias, o tratamento funciona que é uma beleza e, o melhor de tudo, sem efeito colateral algum. Parece ficção científica, mas isso está mais perto de acontecer do que você imagina. E o mérito vem da farmacogenética, uma nova área de pesquisa que promete revolucionar o modo como tratamos as doenças. “A farmacogenética busca individualizar a indicação de medicamentos, ou seja, tenta aumentar a chance do paciente de apresentar uma melhora com o tratamento e reduzir a chance da manifestação de efeitos colaterais”, explica Renan Pedra de Souza, professor de Genética e Evolução na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). As pesquisas nessa área começaram nos anos 1950 e, de lá pra cá, os cientistas tentam descobrir como pessoas dotadas de diferentes características genéticas respondem aos mais diversos tipos de medicamentos. “Como os indivíduos são diferentes entre si, pode haver a necessidade de uma pessoa precisar de uma dosagem um pouco maior ou um pouco menor de determinado medicamento”, explica Pedra de Souza. “A utilização deste tipo de informação tem o potencial de acelerar o processo de cura”, diz o especialista em genética.

Na justa medida

Um exemplo de pesquisa em farmacogenética envolve o uso da varfarina, um anticoagulante recomendado para prevenir a trombose. Se o paciente tem alterações em dois genes (CYP2C9 e VKORC1) e receber uma dose incorreta dessa substância, logo no início do tratamento, das duas uma: ou ela será inócua, ou poderá piorar o quadro. Há muitas outras pesquisas envolvendo toda a sorte de medicamentos e, no futuro, elas podem ter um impacto positivo especialmente na rotina de pacientes que precisam constantemente de medicação. “Para pacientes em uso crônico de medicamento, tal ajuste tem um potencial ainda maior de impacto na qualidade de vida seja por controlar melhor a doença seja por evitar um efeito colateral”, afirma Renan. E por falar nos genes CYP, é bom lembrar deles, pois é justamente para essa turma que boa parte dos pesquisadores está mirando os microscópios. Isso porque eles possuem enzimas responsáveis por metabolizar a grande maioria dos fármacos que utilizamos. Se esses genes têm alguma alteração, a dose tradicionalmente indicada na bula pode não funcionar ou aumentar a chance de efeitos indesejados.


Como seria o dia a dia

Para usufruir dos avanços da farmacogenética, o primeiro passo é ter em mãos o rastreamento genético do paciente. Já existem até laboratórios que fazem isso. Esses dados são então cruzados com as fórmulas de diversos medicamentos, para saber como o corpo de uma pessoa irá reagir a determinadas substâncias. Uma vez feito isso, é mais fácil para o médico prever como o paciente vai responder a determinados tratamentos e, a partir desses dados, ajustar a dose de acordo com o código genético de cada indivíduo. Não seria incrível? No futuro, esperasse que esse detalhamento dos genes esteja na ficha de cada paciente, para que o médico possa ter acesso a ele durante a consulta e na hora de prescrever um determinado tratamento. Outro impacto da farmacogenética, lá na frente, seria na posologia que vemos nas bulas — essa teria de mudar, de modo a incluir grupos de indivíduos com características genéticas específicas. A maneira de testar medicamentos e avaliar a dosagem básica também teria de, mais adiante, ser adaptada em consequência dos avanços dessa nova especialidade da área da saúde.

Isso não é milagre

É bom que fique claro que não são apenas os genes que determinam a forma como vamos reagir a alguns medicamentos. Fatores como peso, idade e sexo, além do estado da nossa saúde, também influenciam na resposta do organismo ao tratamento de doenças. Uma pessoa com hipertensão ou problemas hepáticos, por exemplo, precisará de dosagem diferente de um dado remédio para tratar o mesmo sintoma que afeta um adulto saudável. E o mesmo cuidado em adaptar as doses vale para crianças, gestantes e idosos. Outro detalhe que muita gente deixa passar despercebido e que tem uma importância crucial: tomar remédios sem orientação médica ou não respeitar a dosagem indicada pelo médico. “Um erro de dosagem pode acarretar a morte de uma pessoa, causar efeitos tóxicos ou então o medicamento nem sequer irá fazer efeito, por isso, é tão importante evitar a automedicação e seguir exatamente o que o médico ou farmacêutico indicaram”, explica Geraldo Alécio, coordenador do curso de Farmácia na Universidade Anhembi Morumbi (SP). Enquanto o futuro não chega, a saída é respeitar as doses recomendadas pelos médicos, e também relatar quaisquer suspeitas de efeito colateral. E é a partir desse retorno, fornecido pelo paciente ao médico ou farmacêutico quando utiliza um medicamento, que novas pesquisas podem ser feitas e a ciência pode encontrar maneiras cada vez mais eficientes de cuidar da saúde do nosso corpo.

Como o medicamento chega até você?

Demora dez, vinte anos ou até mais tempo para um remédio chegar ao mercado. Segundo o farmacêutico Geraldo Alécio, coordenador do curso de Farmácia na Universidade Anhembi Morumbi (SP), são realizados experimentos em animais com características fisiológicas semelhantes as dos humanos. Em seguida, passa-se para os testes em pessoas. Esses são sempre adultos e saudáveis. “Geralmente, essa fase da pesquisa é realizada em vários países, para que se avaliem as reações de acordo com as raças”, explica. Os cientistas avaliam, ao longo destes testes, qual a dose correta e segura que deve ser prescrita para que o medicamento faça efeito sem se tornar tóxico. “Se o princípio ativo permanece no corpo por doze horas, quando o medicamento for lançado, a recomendação será a de tomar a medicação de doze em doze horas; se o corpo elimina o medicamento em oito horas, a recomendação será a de utilizá-la a cada oito horas, e assim por diante”, diz Alécio. Por isso, só com o tempo e a partir dos relatos de reações colaterais, é que a fórmula de um medicamento vai sendo ajustada e as doses recomendadas podem ser modificadas para grupos específicos. A esse processo se dá o nome de janela terapêutica.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Amendoim mais rico

O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) acaba de apresentar uma nova variedade da oleaginosa.Ela sobressai em relação à original por contar com 40% a mais de ácido oleico, um tipo de gordura monoinsaturada. “Esse nutriente ajuda a reduzir as taxas de triglicérides e aumentar as do colesterol HDL, que é benéfico para a saúde”, conta Ignácio José de Godoy, pesquisador do IAC.

Há outra vantagem: o prazo de validade é maior. Para ter ideia, enquanto a vida de prateleira da oleaginosa comum varia entre quatro e seis meses, a do amendoim cheio de ácido oleico chega a um ano. Só o sabor permanece igualzinho. Para tirar a prova, Godoy conta que precisamos esperar cerca de dois anos até o produto aparecer nas gôndolas.

Fonte: Revista saude - editora abril

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Retarde o envelhecimento comendo uma castanha por dia

Uma castanha por dia, não mais do que isso, garante as doses de selênio de que seu corpo precisa para preservar cada célula,botar para fora possíveis substâncias tóxicas e viver mais.


Cabe na palma da sua mão, e ainda sobra um espaço e tanto, a arma que vai superproteger as unidades microscópicas do seu organismo. Em segundos, ao mastigar uma única castanha-do-pará, você recarregará os níveis de um mineral extremamente importante para uma vida longa e saudável: o selênio. A pequena oleaginosa repõe a quantidade do nutriente necessária para dar combate ao envelhecimento celular, causado pela formação natural daquelas incansáveis moléculas que danificam as células, os radicais livres.

Um estudo da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, atesta que a ingestão diária de duas castanhas-do-pará recentemente rebatizadas castanhas-do- brasil eleva em 65% o teor de selênio no sangue. Mas provavelmente os neozelandeses não usaram o legítimo produto brasileiro. Ora, nós somos sortudos. É que ascastanhas produzidas no Norte e no Nordeste do país são tão ricas em selênio que bastaria uma unidade para tirar o mesmo proveito. A recomendação é de que um adulto consuma, no mínimo, 55 microgramas por dia, diz a nutricionista Bárbara Rita Cardoso, pesquisadora do Laboratório de Minerais da Universidade de São Paulo. E com uma unidade da nossa castanha já é possível encontrar bem mais do que isso de 200 a 400 microgramas do bendito selênio. Aliás, o limite de consumo diário do mineral é de 400 microgramas, portanto, não vá com muita fome ao pote. No caso de uma criança, meia castanha seria suficiente, afirma Silvia Cozzolino, presidenta da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição.

E por que toda essa fama do selênio? Ele é essencial para acionar enzimas que combatem os radicais livres, responde Christine Thomson, a pesquisadora neozelandesa que investigou as propriedades da castanha. O selênio se liga a algumas proteínas já existentes em nosso corpo para formar essas enzimas antioxidantes, descreve, completando, Bárbara Cardoso. Na ausência dele, as tais enzimas fi cam sem atividade e, então, deixam de combater os radicais e ainda desguarnecem as defesas do organismo.

O mineral da castanha também teria um papel especial na proteção do cérebro. É que, com essa capacidade de acabar com a farra dos radicais livres, as células nervosas seriam preservadas, evitando o surgimento de doenças neurodegenerativas com a idade. Justamente por isso, a pesquisadora Bárbara Rita Cardoso começa a estudar os possíveis benefícios do selênio em portadores do mal de Alzheimer. A gente desconfia que nesses pacientes os radicais façam maiores estragos, diz ela.

A tireóide também funciona melhor na presença do selênio, acrescenta Christine Thomson. Isso porque, se não houver esse elemento, ela não consegue produzir direito seus célebres hormônios. O mineral também está intimamente associado à capacidade de o organismo se livrar de substâncias tóxicas, ajudando-o inclusive a expulsar possíveis metais pesados que se alojam nas células.


Apesar de tudo isso, o badalado selênio deve ser apreciado com moderação. Quando os especialistas recomendam uma castanha diária, é para segui-lo à risca. Acredite: o conselho não é nem um pouco mesquinho. Esse consumo ideal e comedido é que faz todas essas enzimas que dependem do nutriente trabalharem de forma adequada, diz Bárbara. Em excesso, o selênio não vai potencializar sua ação. E o pior: mais cedo ou mais tarde, o exagero rotineiro vai revelar o lado negro da substância. Sim, ele existe: a toxicidade. Ela acontece se a pessoa ingerir mais de 800 microgramas por dia, adverte Silvia Cozzolino. É que o selênio tem efeito cumulativo, emenda Christine Thomson.
Isso não significa que abusar das deliciosas castanhas em uma happy hour com amigos traga grandes ameaças. De vez em quando, dá até para superar a quantidade recomendada. O perigo é comer essas oleaginosas além da conta todo santo dia. Quem experimentar ataques sucessivos de gula poderá sentir dor de cabeça, ficar com as unhas fracas e ver seus cabelos caírem. Mas, em geral, quem come dez castanhas hoje não vai se empanturrar delas amanhã, usa a lógica a expert em nutrição Silvia Cozzolino. No máximo, o preço desse pecado será um mau hálito parecido com o bafo de alho acredite!
Não corre o mesmo risco quem comer, vez ou outra, algum prato que leve a castanha na receita até porque, seja doce ou salgado, difi cilmente uma porção reunirá tantas unidades assim. E saiba: nem o fogão nem a geladeira conseguem detonar as reservas de selênio. No dia-a-dia, porém, nada melhor do que a praticidade de botar na mochila, no bolso ou na bolsa a sua estrela solitária. É saúde na medida certa!

Para chegar à quantidade de selênio de uma castanha-do-pará (de 5 gramas), você teria que consumir, em média, o equivalente a...

3 filés de frango (100 gramas cada um)
16 pães franceses (50 gramas cada um)
100 copos de leite (200 mililitros por copo)
10 ostras (33 gramas cada uma)
3 latas de sardinha em conserva (130 gramas cada uma)


Fonte: Revista saude - editora abril


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Canela blinda a cuca


Estudo americano indica que a especiaria de aroma marcante pode diminuir o risco da doença de Alzheimer.
 
Cientistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, apontam que a canela, um tempero muito usado pelos antigos egípcios, merece mais crédito nos dias de hoje. Em um experimento, eles mostraram que tanto o cinamaldeído quanto a epicatequina, duas substâncias da canela, conseguem ampliar a proteção contra o Alzheimer.

Tudo leva a crer que elas interagem com a proteína tau, responsável por assegurar a conexão entre os neurônios. “Isso impediria a agregação dessa proteína, um dos fenômenos envolvidos no Alzheimer”, relata Roshni George, um dos autores da investigação. Ainda que as evidências sejam promissoras, George avisa: “Precisamos descobrir se os componentes da canela agiriam da mesma forma no organismo”. Por isso, é cedo para falar em quantidade ideal de consumo. Mas não custa nada abrir mais espaço para a especiaria nas suas receitas.

Fonte: Revista saude - editora abril

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Energia de sobra, encrencas à vista

Lotados de cafeína, os energéticos não são inócuos como parecem. Em excesso, eles abalam o coração, provocam gastrite e danificam os dentes.


Como o desejo de que o dia tenha bem mais de 24 horas não passará disso, ou seja, de um desejo, as pessoas vivem procurando maneiras de fazer o tempo disponível render. Uma delas é mandar energéticos goela abaixo para ficar a mil. O indício de que se trata de um comportamento cada vez mais corriqueiro vem do Serviço de Administração em Abuso de Substâncias e Saúde Mental, nos Estados Unidos. Em um documento recente, o órgão revela que, entre 2007 e 2011, aumentou em 279% o número de indivíduos acima de 40 anos visitando o pronto-socorro após a ingestão da bebida. Prova de que não são apenas os jovens baladeiros que se entopem de latinhas.

Outro dado intrigante: em 2011, quase 60% desses atendimentos emergenciais estavam associados somente ao uso dos energéticos — isto é, não havia álcool ou drogas na jogada. A situação americana está longe de surpreender especialistas brasileiros. Afinal, essa parece ser uma realidade também por aqui. "Devido à rotina atribulada, muita gente já acorda cansada", nota o cardiologista Daniel Pellegrino dos Santos, do Hospital do Coração, na capital paulista.

Daí, às vezes só com a ajuda da bendita cafeína, principal composto das bebidas estimulantes, para aguentar o tranco. Só que existe um limite para seu consumo. "Adultos, por exemplo, podem ingerir no máximo 2,5 miligramas de cafeína por quilo de peso", informa Santos. Isso significa que uma mulher de 60 quilos precisaria parar nos 150 miligramas. "Acontece que, nos energéticos, a quantidade de cafeína varia de 80 até 500 miligramas", avisa a cardiologista Luciana Janot Matos, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

E o excesso cobra seu preço. Quem paga mais caro, geralmente, é o coração. "A cafeína instiga o sistema nervoso simpático a liberar hormônios estimulantes, como adrenalina e noradrenalina", explica a médica. Algo preocupante, pois essa dupla propicia o aumento da frequência cardíaca e o estreitamento dos vasos sanguíneos, fazendo a pressão decolar. Em sujeitos com problemas prévios nas artérias — muitas vezes silenciosos —, o efeito eventualmente serve como estopim para um infarto ou derrame.

Esses hormônios excitantes ainda são capazes de fazer o coração bater em ritmo pra lá de apressado, quadro conhecido como arritmia. "Quando há um histórico de doença cardíaca, a aceleração pode ser fatal", avisa Daniel Daher, presidente do Grupo de Estudos em Cardiologia do Esporte da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

O fato de seu coração estar aparentemente livre de enroscos não serve de argumento para abusar das latinhas. Especialmente para quem já atingiu os 40 anos de idade. "Com o passar do tempo, sobe a probabilidade de a pessoa ter sido exposta a fatores de risco como pressão alta, obesidade, tabagismo, dieta inadequada, entre outros", lembra Daher. Os energéticos seriam, então, um ingrediente extra na equação bombástica. Fora que uma parcela daqueles que à primeira vista esbanjam saúde — são magros, comem direito e fazem exercícios — possuem um risco aumentado de males cardíacos por causa da herença genética. Mais um motivo para espiar o rótulo e evitar se entupir de cafeína.

A recomendação vale por outras razões, como barrar a gastrite. Isso porque tanto a cafeína como os hormônios excitantes despejados na corrente sanguínea contribuem para a maior produção de ácidos que irritam a mucosa do estômago, o que explica a sensação de queimação. O estado de agitação ainda favorece a ocorrência de tremores involuntários pelo corpo todo, inclusive nas pálpebras. Para piorar, no dia seguinte a tendência é sentir uma espécie de ressaca, com sonolência e tudo mais. "Aí, crescem as chances de lançar mão da bebida novamente", raciocina o cardiologista Rui Póvoa, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Se as consequências da falta de comedimento já são temerosas nos adultos, imagine em crianças e adolescentes. "Eles são mais suscetíveis aos efeitos da cafeína. Sem contar que seu sistema cardiovascular está em formação", enfatiza a cardiologista Grace Bichara, do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo. As preocupações vão além: é comum que os energéticos sejam misturados a bebidas alcoólicas. Segundo levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Unifesp, dos mais de 50 mil jovens entrevistados em 2010, pelo menos 60,5% relataram já ter consumido alguma bebida alcoólica, sendo que 15,4% adicionaram o energético ao copo. "O perigo é que a mistura potencializa o efeito estimulante do álcool, motivando sua procura em outras ocasiões", alerta Sionaldo Ferreira, professor de educação física da instituição. Levantamentos também apontam que a coordenação motora e o tempo de reação são afetados, abrindo brecha para acidentes.

A cafeína não está sozinha
Embora a maioria das chateações decorrentes dos energéticos esteja relacionada à presença dessa substância, há prejuízos que se manifestam graças a outras características do líquido. Sua acidez é um exemplo, como registra um estudo da Universidade do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Nele, dentes bovinos, cuja composição é semelhante à dos nossos, foram imersos no líquido durante 15 minutos, quatro vezes ao dia, por cinco dias.


O resultado não foi nada positivo. "A bebida removeu o cálcio dos dentes e tornou a superfície do esmalte porosa", atesta Lídia Morales Justino, professora de odontologia e orientadora da pesquisa. "Isso cria condições para a deposição de corantes ali, culminando em mudança de cor", completa. Colocando tudo na balança — do coração ameaçado aos dentes manchados —, você há de convir que uma boa noite de sono ainda é a melhor pedida para repor as energias. Energético? Só de vez em quando e com moderação.

Sempre alerta: consumir a dose adequada de cafeína é um desafio, visto que ela está em vários itens 

Energético -  1 lata - 80 mg a 500 mg
Café espresso - 1 xícara de 60 ml -  60 mg
Guaraná em pó - 1 grama - 44 mg
Chá-preto - 1 xícara de 150 ml -  35 mg
Refrigerante de cola - 1 lata - 31 mg
Chocolate amargo - 1 barra de 170 g - 31 mg
Chocolate ao leite - 1 barra de 170 g - 10 mg


Gás natural
Falta disposição para trabalhar ou assistir às aulas da faculdade? Antes de recorrer aos energéticos para encontrar o vigor perdido, que tal se questionar a quantas andam seu sono, sua dieta e a frequência na academia? É que os três fatores, quando levados a sério, fornecem a energia necessária para você aguentar o corre-corre. "Parece simples, mas a maioria das pessoas não dorme pelo menos oito horas diárias, tem uma alimentação desequilibrada ou não faz exercícios pelo menos quatro vezes por semana", lamenta o cardiologista Daniel Daher, da SBC.


Os efeitos do excesso de energéticos pelo corpo
A mistura de cafeína, taurina, guaraná e ginseng — ingredientes encontrados nessas bebidas — é capaz de causar uma série de desajustes. Conheça os principais:


 

Erosão dentária

O pH baixo dos energéticos fomenta um desequilíbrio bucal. Assim, o cálcio sai dos dentes, alterando a superfície do esmalte.

 

Contrações musculares

A descarga de adrenalina e noradrenalina no organismo pode desencadear contrações involuntárias nos músculos.

 

Fasciculação

Os níveis elevados de hormônios estimulantes correndo pela circulação fazem as pálpebras tremerem.

 

Infarto e AVC

As substâncias que conferem excitação também geram endurecimento das artérias. No cérebro, o aperto pode levar a um derrame. No coração, a um ataque cardíaco.

 

Gastrite

Os hormônios liberados por causa da cafeína da bebida favorecem a produção de ácidos no estômago. Isso explica a possibilidade de queimação.

Fonte: Revista saude - editora abril